Se perder a eleição na Câmara, Bolsonaro terá contra ele dois dos três poderes da República.

Quem será o próximo presidente da Câmara? Um apadrinhado do presidente da República, Jair Bolsonaro, como Arthur Lira (PP-AL), ou o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), indicado pelo atual dirigente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ)?

O resultado está absolutamente indefinido. Mas uma coisa já é certa: Na disputa com Bolsonaro, Maia mostrou capacidade de unir boa parcela dos partidos de centro e até de direita às legendas de esquerda.

Ou seja, conseguiu o que queria: se colocar como um dos poucos políticos do país capazes de transitar no campo progressista, com algum apoio até mesmo de setores da esquerda que antes demonizavam qualquer aliança.

Maia está usando a disputa pela presidência presidência da Câmara para se viabilizar como um possível candidato contra os radicalismos em 2022. Uma pausa na velha polarização política em que o país mergulhou após as denúncias do Mensalão.

É curiosa a volta que está dando a política brasileira: o Mensalão nasceu de uma acusação do então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), hoje um defensor incondicional de Bolsonaro, contra a aliança do centrão com o governo petista.

Jefferson apontou que o centrão -incluindo o partido que ele preside, o PTB- se uniu à esquerda por interesses financeiros. Denunciou a si mesmo e acabou preso. Mas armou o gatilho da bomba que implodiria, mais tarde, a coalizão do centrão com o governo petista de Dilma Rousseff.

Bolsonaro fez campanha contra o que chamou de “velha política”, ou seja, esse toma lá dá cá que marcou historicamente o centrão. Conseguiu atrair o apoio do centro e até de setores progressistas com um discurso liberal que nunca professou.

E acabou estabelecendo um governo de coalizão com quem? Com o velho centrão. Agora o presidente da República disputa com o centro liberal e progressistas de direita e de esquerda o controle da Câmara, antecipando o que pode ser a disputa eleitoral de 2022.

Bolsonaro preferia bater de frente só contra a esquerda. Não gosta da ideia de que venha a concorrer contra uma aliança unindo a esquerda a setores da direita e do centro.

Já Rodrigo Maia aposta nessa disputa. Mas acha que o problema dos progressistas é que eles não têm até o momento um nome que os una.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não goza da confiança da esquerda que lhe garantiria esse trânsito. Doria vem de um discurso quase tão radical quanto o de Bolsonaro contra os petistas e o que chegou a chamar de “comunistas”.

O ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) até poderia ser essa opção, na opinião do presidente da Câmara, mas também criou dificuldades para o diálogo com a esquerda, especialmente o PT, quando xingou de ladrões e coisas assim alguns líderes do partido.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva também poderia ser uma opção, mas queimou navios ao assumir um discurso liberal em 2010 com conotações eleitoreiras que não combinavam com os padrões éticos de seu eleitorado.

E o apresentador de TV Luciano Huck ainda não pisou de fato no gramado da política. Rodrigo Maia acha que isso tudo faz com que ele possa ser a opção de reunificação dos setores progressistas do país.

E a briga com Bolsonaro e os ultraconservadores em torno do comando da Câmara caiu como uma luva nessa estratégia. Ele não tem voto?.

É verdade. Mas Bolsonaro também não tinha, nem Dilma Rousseff, nem Fernando Collor de Mello antes de caírem nas graças do eleitorado. Nem mesmo Fernando Henrique Cardoso.

Afinal, voto é coisa que se constrói. E se não der para ser candidato? A vaga de vice numa chapa forte não será tão ruim assim. Daqui para a frente, o que vier é lucro.

TALES FARIA

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