Por Luiz Trevisan 

Na sua passagem pelo Brasil, em 2015, o baterista Ringo Starr cumprimentava as pessoas com os cotovelos, evitando apertos de mão. Passava então a imagem do inglês esnobe não querendo contágios com aborígenes da América do Sul.

Cinco anos depois, virou mais um “protocolo” para enfrentar a pandemia da Covid-19. Não foi a primeira vez que o baterista pareceu premonitório. Quando os Beatles iriam começar a ganhar o mundo com suas músicas, na penúltima hora ele ingressou na banda substituindo Peter Best. E embarcou no tapete mágico da fama, fazendo história e fortuna, como todos sabem.

Porém, mesmo em clima de pandemia, cumprimentar pelos cotovelos segue sendo uma atitude antipática, melhor ficar nos acenos e com distância regulamentar. Protocolos existem para serem testados e, não raramente, modificados.

É o que mais se vê ao longo da interminável quarentena imposta pelo vírus saído das cavernas da China para assombrar a humanidade. A contagem diária dos mortos virou uma balada sombria e asfixiante. Assim como a escalada da ocupação dos leitos e da falta de respiradores.

E surge toda uma gama de protocolos: distanciamento, isolamento, trabalho remoto, usar máscaras, lavar bem as mãos, reforçar cuidados de higiene em casa, na rua, em todos os lugares. E todos seguindo sem muita certeza de nada.

“Isso vai passar”, virou bordão da esperança. Em meio aos desconectados de costume vistos em aglomerações festivas. É o bloco que liga o “f*” e vai pra balada, nem aí para o entorno, o coletivo e o amanhã.

No som ao redor, a sirene das ambulâncias se misturam ao barulho das carreatas de empresários pedindo flexibilização do isolamento. Muitos deles não se contentam com o lucro cessante, embora o mundo esteja como previu o “maluco beleza” Raul Seixas na canção ”O Dia em Que a Terra Parou”.

Aliado a isso, muitas incertezas trazidas por um governo menos preocupado com protocolos e que parece mais interessado num camuflado plano de eugenia na previdência e saúde pública.

E caem as máscaras dos afetos. Casais restritos ao isolamento desnudam conflitos, relacionamentos afetivos não resistem a uma quarentena compartilhada, enquanto aqueles virtuais não sobrevivem às preocupações mais próximas e palpáveis.

E com quase todos em estado mais emotivo, se a pessoa querida, ao longo do distanciamento não se apresenta de alguma forma, é sinal de que o sentimento cortejado era areia de ampulheta que o tempo levou.

Como será o novo “normal” das relações? Sociólogos, filósofos, escritores projetam dois cenários básicos. Num primeiro momento, predomínio das relações monogâmicas na esteira do “fique em casa”, e evite contágios. Num segundo estágio, com a cura,liberação total.

“Após a pandemia, o mundo deverá entrar numa era de contato físico selvagem e decadente”, projeta o escritor britânico David Nicholls.

No novo amanhã, outras etiquetas. Talvez nem tanto para os frios ingleses e nórdicos, mas calará em nós, tropicalistas, que sentimos falta dos abraços e afagos entre pessoas queridas; da piscina e copos compartilhados, do churrasco dividido, das viagens em grupos nos navios e aviões.

Teremos que encontrar uma forma menos efusiva de convivência. Indo além, e na contramão do bordão do momento ”nada será como antes”, a atriz Débora Bloch teme que a humanidade “pouco vai alterar seus valores”.

Ela prevê que as desigualdades permanecerão, assim como as discriminações raciais e sociais; a ganância e indiferença dos poderosos, a corrupção que não livra nem respiradores e hospitais de campanha.

Novos protocolos serão mantidos, como o distanciamento e assepsia, para reduzir perigo de nova pandemia. O risco sanitário no transporte público pede um novo modelo, a recessão global deixará países e pessoas mais pobres, demandando melhor uso dos recursos.

No trabalho, empresas vão precisar de maior compromisso com a segurança dos trabalhadores. Internet e outras inovações tecnológicas serão a tônica do futuro no trabalho, no comércio, em casa.

Só espero que o mundo de amanhã, seja como for o “novo normal”, nos livre das lives musicais rapidamente. Não têm calor humano, carecem de empatia, soam artificiais. E lembram um tempo que é melhor esquecer. [email protected]

Luiz Trevisan é jornalista, músico e escritor.