Enquanto o alto e o baixo tucanato se bica lá e cá, o governador Paulo Hartung sinaliza intenção de sair do PMDB e, possivelmente, ir para o ninho dividido do PSDB. Paralelamente, seu nome surge aqui e ali como vice de algum presidenciável de plantão. O último da lista é o apresentador de TV Luciano Huck. Embora isso possa parecer pegadinha, a conversa rolou de fato na casa do economista Armínio Fraga durante um jantar com presença de PH e do marido da Angélica. Nos últimos tempos, o governador capixaba virou nome cotado para compor chapa presidenciável com João Dória – o prefeito-ausente de São Paulo – e também com Rodrigo Maia (DEM) e Joaquim Barbosa.

Mas o que se diz no núcleo duro hartunguista sobre tais movimentações? O deputado federal e líder de Temer, Lelo Coimbra (PMDB), já veio a público dizer que PH deverá disputar mesmo a reeleição e que tende a ficar no PMDB. Esse último item pode parecer mais uma manifestação de desejo de Lelo, porém não se deve minimizar inteiramente sua opinião. Lelo é tipo fiel escudeiro de PH e replica a intenção de boa parte do grupo hartunguista, que quer ver o governador disputando a reeleição.

Até porque o grupo ainda não tem um nome forte e aglutinador para eventual tarefa de substituir PH na disputa ao governo em 2018. Alguns cogitados são os secretários Octaciano Neto, Paulo Roberto e Zé Carlinhos da Fonseca. Contudo, os três parecem carecer de maior musculatura eleitoral. Restam o vice-governador César Colnago (PSDB) e o senador Ricardo Ferraço (PSDB), que não chegam a empolgar o grupo. Sem contar que o senador Ferraço agora tem o pai, Theodorico Ferraço (DEM), em rota contrária a PH.

Do outro lado, o ex-governador Renato Casagrande (PSB) e a senadora Rose de Freitas (PMDB) se movimentam juntos e de olho nos passos do governador. E há quem veja o cenário de duas formas. Com PH concorrendo ao governo, mesmo Casagrande e Rose pensarão até dez vezes antes de encarar de fato um confronto direto nas urnas. Sem PH, o jogo fica nivelado e, em tese, até com certa vantagem para Casagrande ou Rose.

Porém, se PH deseja mesmo se projetar na política nacional e ocupar o atual vazio de lideranças – conforme aponta sua movimentação junto aos presidenciáveis e o noticiário que fomenta em jornais e revistas do Rio e São Paulo –, o caminho menos indicado será disputar a reeleição. Voltaria a ficar preso à cena local e às questões regionais. Se quisesse, por exemplo, aceitar um cargo de ministro, precisaria renunciar ao mandato. Já como Senador, ele ganha salvo-conduto para isso, além de bom espaço na agenda nacional. Naturalmente que se for convencido a figurar numa chapa presidencial, essas alternativas se tornam secundárias.

Ao mesmo tempo, vivemos uma conjuntura plena de incertezas, alarmismo, intolerância, violência e extremismo a rodo. Ninguém sabe ao certo até onde vai a Lava-Jato, se é que ainda vai a algum lugar, pois as elites excludentes estão se blindando. Basta mirar o Congresso e as últimas decisões do STF. E ninguém sabe também quais opções eleitorais teremos, nem se Lula e Bolsonaro serão de fato candidatos. Há única certeza, pela movimentação de agora, é que se PH decidir investir na cena nacional, vai entrar pelo caminho do centro, com apoio do grande empresariado que hoje raciocina assim: ruim com Temer, pior sem ele.

A propósito, esse panorama conturbado é bem definido por quem entende de jogos de cena, a atriz e escritora Fernanda Montenegro. Em vias de lançar “A glória e seu cortejo de horrores”, seu novo romance, a atriz pontua que o país está deprimido. “Levamos 20 anos para construir uma democracia e de repente estamos vendo as coisas ruírem. Viramos uma estrada esburacada. Estamos vivendo a truculência da democracia, o que deixa tudo mais confuso”.