BRASÍLIA – A corrida ao Palácio do Planalto é acompanhada de perto pela lupa privilegiada de estrangeiros há anos dedicados a pesquisar o Brasil. Três brasilianistas americanos falaram sobre os fatores que consideram mais surpreendentes na disputa deste ano:

O avanço da extrema direita e o alto poder de transferência de votos do ex-presidente Lula, mesmo condenado e preso por corrupção.

 Avaliaram também que os elevados índices de rejeição de Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), respectivamente, 1º e 2º colocados nas pesquisas de intenção de voto, trarão dificuldades tanto na busca de alianças para um eventual segundo turno como para colocar a economia nos trilhos, em caso de vitória de qualquer um dos dois candidatos.

“À primeira vista, o problema da rejeição é mais sério para o Bolsonaro, mas a conjuntura brasileira é tão imprevisível quanto à dos Estados Unidos em 2016, quando Donald Trump venceu as eleições”, disse Kenneth P. Serbin, professor de história da Universidade de San Diego, na Califórnia, e vice-presidente da Associação de Estudos Brasileiros (Brasa, na sigla em inglês).

“Mas a necessidade de alianças no sistema brasileiro é tão forte que os dois candidatos podem acabar sendo obrigados a engolir alianças inimagináveis. Vale lembrar as alianças do Fernando Henrique Cardoso com o PFL e do Lula com o PL e o PMDB”, observou Serbin, que também é escritor.

Ele vai lançar, em 2019, o livro From Revolution to Power in Brazil: How Radical Leftists Embraced Capitalism and Struggled with Leadership (Da revolução ao poder no Brasil: como esquerdistas radicais abraçaram o capitalismo e lutaram com liderança).

Ao falar de Bolsonaro, ele se disse impressionado com o crescimento da extrema direita no Brasil. “É preocupante o nível de popularidade de um Bolsonaro, que parece não aceitar as regras democráticas de tolerância e negociação. A direita está tendo um crescimento que era imprevisível há dez anos”, afirmou.

Alianças

Também o estudioso Peter Hakim, presidente emérito da ONG Inter-American Dialogue (Diálogo Inter-Americano), avalia que Bolsonaro poderá ter mais dificuldades que Haddad para estabelecer alianças para o segundo turno.

 “Bolsonaro é um candidato incomum, especialmente extremo, até mesmo fanático, que rejeita e continuamente viola as normas extremamente frouxas e as restrições limitadas da política brasileira”, criticou.

 Ele ponderou que, apesar disso, tudo é possível de acontecer na política brasileira. “No Brasil, as alianças não são construídas com base em ideologias ou posições políticas. Elas são formadas, principalmente, para garantir empregos públicos em todos os níveis, fundos e outros benefícios para as cidades e estados, e, muitas vezes, compensações ilegais para os partidos aliados e suas lideranças”, afirmou Hakim.

 Ainda sobre o candidato do PSL, o brasilianista disse ser “muito difícil de analisar ou entender” o avanço da extrema direita no país. “Fiquei sempre impressionado com a falta de qualquer partido ou movimento político de extrema direita no Brasil, quando comparado ao resto da América Latina ou à Europa”, observou.

 “O surgimento da direita no Brasil é compreensível, considerando os prolongados problemas econômicos do país, a exposição de sua corrupção generalizada na política e nos negócios, o descrédito, até mesmo a deslegitimação de seus líderes, partidos políticos e instituições democráticas”, analisou o brasilianista.

“Mas a direita surgiu e se espalhou como um incêndio ou uma praga, não como resultado de um processo constante de construção ao longo do tempo. Talvez, termine nesta eleição, ou simplesmente continue ganhando força”.

 Sobre o avanço de Haddad na reta final da campanha, ele disse que isso se deve ao fato de “Lula da Silva ocupar um lugar especial na história do Brasil”. Segundo ele, “se Haddad vencer a eleição, será mais uma vitória de Lula, não do PT.

O papel do PT nas próximas semanas é garantir que todos os brasileiros saibam que votar em Haddad é um voto para Lula e sua marca de política e liderança”.

Com informações do C.Braziliense